O BRASILEIRO FOGE DA BRASILIDADE?
A resposta que permeia nosso artigo depende da leitura pessoal sobre o que é brasilidade.
Movimentos europeus, especialmente entre as classes média e alta urbanas entre o século XIX e o início do XX, culminaram na vanglorização, não mais do que justa, da arquitetura europeia, das marcas internacionais, dos vinhos importados, dos móveis escandinavos e dos ingredientes estrangeiros, que passaram a ocupar um espaço importante na construção de status e repertório cultural no país.
Por outro lado, o Brasil foi atravessado por influências indígenas, africanas, portuguesas, italianas e tantas outras, formando sucessivas camadas culturais e, por assim dizer, ao mesmo tempo, parte de sua relevância econômica esteve associada à exportação de matérias-primas. O fato é que a riqueza do café, do cacau, da madeira e do algodão ganhou o mundo, mas, muitas vezes, deixando para trás as histórias sobre os territórios e os saberes que os originaram. No comércio brasileiro do século XIX, a influência francesa chegou a aparecer nos próprios nomes dos estabelecimentos, com referências parisienses como Louvre, Au Printemps e À la Ville de Paris, enquanto artigos importados da França e da Inglaterra circulavam entre consumidores urbanos.
É justamente com um contraponto nichado de mercado que a diversidade brasileira encontra força: quando a estética circula globalmente, histórias, origens, autoria e território ganham outra relevância como elementos de diferenciação. Cidades, hotéis, restaurantes e marcas compartilham referências em uma velocidade que torna suas linguagens visuais cada vez mais próximas e, dessa combinação, surge a identidade difícil de reproduzir: o repertório, formado pela mistura, pela adaptação e pela convivência entre diferentes referências, por uma das maiores biodiversidades do planeta e por uma formação cultural construída a partir de diferentes povos, territórios e influências ao longo do tempo.
Talvez por isso o movimento atual esteja cada vez mais distante de uma “redescoberta” do Brasil. O país e suas histórias nunca deixaram de existir.
O que muda é a capacidade de reconhecer valor no que sempre esteve presente.
O cacau brasileiro ganha o sobrenome do produtor, a localização explícita da fazenda e o processo de cultivo. Ganha rosto e ganha espaço de fala. No Sul da Bahia, a própria procedência tornou-se parte formal do valor do produto com o reconhecimento da Indicação Geográfica do cacau, enquanto modelos como Tree to Bar aproximaram cultivo, produtor e barra final dentro da mesma narrativa.
O artesanato ganha autoria. Contar histórias, por meio da fotografia e do manejo, passou, assim como em países europeus de nossas referências, a ser tão integral, tão influente e tão parte da interpretação de consumo de um público nichado que tudo aquilo que, há alguns anos, circulava principalmente como matéria passa a carregar consigo procedência, conhecimento e contexto, de forma a vangloriar o nacional como um direito adquirido. A história, assim contada, parece criar e acontecer em um tempo próprio, escrito por nós.
Para marcas e empresas. Diante da riqueza das raízes, da essência do mercado e com apreço. Muito apreço.
Por que durante tanto tempo o brasileiro foi habituado a reconhecer o valor cultural agregado aos produtos estrangeiros e não o valor agregado aos seus próprios?

