A LEITURA COMO FORMA DE MULTIPLICAR A VIDA

Para Debora Mendeleh, os livros nunca foram apenas uma forma de escapar do utilitarismo da vida, mas uma maneira de ampliá-la. Leitora inquieta, transita entre literatura clássica, filosofia e psicologia movida menos pela busca de respostas do que pelo desejo de compreender melhor as grandes questões que nos fazem ter olhos mais atentos ao mundo.

 

Em O fator multiplicador da vida, escrito para Foppa Journal, Debora parte de uma inquietação simples: se temos apenas uma vida para viver, quantas outras cabem dentro dela? Entre Dostoiévski, Tolstói, Thomas Mann e Jung, ela reflete sobre a capacidade da literatura de nos emprestar consciências, conflitos e destinos que jamais seriam nossos — e que, ainda assim, passam a nos habitar.

Quantas vidas cabem em uma existência?

A de um jovem que chega a um sanatório em Davos para uma visita de poucas semanas e acaba permanecendo sete anos, descobrindo, entre a doença, o tempo suspenso e intermináveis debates filosóficos, que viver talvez seja antes aprender a olhar do que simplesmente atravessar os dias. A de um estudante miserável que assassina uma velha agiota convencido de que a razão justificaria o crime, apenas para descobrir que nenhuma teoria é capaz de silenciar a consciência. A de um homem escondido em seu subsolo, consumido pelo ressentimento, expondo contradições que preferiríamos acreditar inexistentes em nós mesmos. A de um juiz moribundo que, diante da proximidade da morte, percebe com horror que talvez nunca tenha realmente vivido…

Nenhuma dessas vidas é a nossa. Ainda assim, de algum modo, todas passaram a fazer parte de quem somos.

As grandes obras da literatura não apenas contam histórias. São tratados de psicologia escritos muito antes de a psicologia existir como disciplina. Seus personagens não nos impressionam apenas pelo que fazem, mas pela precisão quase desconfortável com que sentem. Thomas Mann transforma o tempo em matéria palpável. Dostoiévski faz da culpa e da angústia organismos vivos. Tolstói disseca o arrependimento com uma honestidade que poucas vezes encontramos na própria vida.

Há momentos em que deixamos de observar essas personagens e começamos a habitá-las. Sentimos a vertigem de Hans Castorp diante de um mundo que desacelera até revelar dimensões invisíveis da existência; a ansiedade de Raskólnikov, a vergonha do homem do subsolo, o vazio de Ivan Ilitch…

É comprovado que o cérebro não diferencia de maneira absoluta uma experiência vivida de uma experiência profundamente imaginada. Estudos em neurociência mostram que narrativas envolventes ativam circuitos relacionados à simulação de ações, emoções e intenções, ampliando nossa capacidade de empatia e compreensão do outro. A literatura transforma páginas em experiências psíquicas.

Carl Gustav Jung dizia que a personalidade não nasce pronta; ela se constrói à medida que a consciência se expande e integra novos conteúdos. A individuação é justamente esse processo de tornar-se mais inteiro. Nesse sentido, cada grande obra literária amplia um pouco o território da nossa própria consciência. Ao viver, ainda que simbolicamente, conflitos que nunca experimentamos, incorporamos possibilidades humanas que talvez jamais encontraríamos apenas dentro dos limites da nossa biografia.

Há quem diga que a experiência é a grande professora da vida. Talvez seja. Mas ela encontra um limite intransponível: uma única existência comporta apenas uma fração ínfima das possibilidades humanas. Ninguém poderá amar de todas as formas, fracassar de todos os modos, atravessar todas as culturas ou enfrentar todas as tragédias.

A literatura contorna essa limitação. Cada grande obra amplia o horizonte da nossa consciência e nos permite viver, ainda que simbolicamente, destinos que jamais seriam nossos. Esse talvez seja o seu maior poder: expandir a extensão da vida sem acrescentar um único dia ao tempo que nos é dado.

 

"Lemos para conhecer o mundo. Mas, sobretudo, lemos para descobrir partes de nós mesmos que ainda não existiam."


— D. MENDELEH

LIVROS QUE ATRAVESSAM ESTE ENSAIO

 
 

LIBRARIES AROUND THE WORLD... os livros nos permitem habitar outras vidas, as bibliotecas talvez sejam os lugares onde todas essas vidas coexistem.

 
 

Em Libraries, a fotógrafa alemã Candida Höfer percorre algumas das mais extraordinárias bibliotecas do mundo. Vazias de pessoas, suas imagens revelam algo paradoxal: mesmo silenciosos e desabitados, esses espaços parecem cheios de presença.


ALGUMAS DAS BIBLIOTECAS MAIS LINDAS DO MUNDO


“Há lugares construídos para guardar livros. E há livros capazes de guardar vidas inteiras.”

Debora Mendeleh

Leitora inquieta, transita entre literatura clássica, filosofia e psicologia movida menos pela busca de respostas do que pelo desejo de compreender melhor as grandes questões que nos fazem ter olhos mais atentos ao mundo.

https://www.instagram.com/deboramendeleh/
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