Uma forma de viver a cultura

Consumir uma cultura é diferente de permitir que ela organize a forma como o mundo e a realidade são interpretados e muito provavelmente, este seja o principal motivo pelo qual experiências japonesas são reconhecidas há anos como os possíveis tesouros escondidos da hospitalidade. O templo Jikoin, fundado em 1663, foi projetado como uma grande sala de chá a partir de um conjunto inteiro em que o portão, o caminho de pedras atravessando a mata, o salão aberto e as salas menores marcavam a passagem do mundo exterior, construindo uma expectativa de proximidade antes do ritual do chá acontecer. O vislumbre não é excessivamente acidental e sim, conectado ao fato de que ambientes maiores favorecem práticas de contemplação mediante a sensação de espaço e conversa, enquanto salas menores criam proximidade e outros tipos de trocas: intimistas e por vezes, internas.

Mesmo entre as cidades densas, os ambientes mantém as pessoas longe de ruídos salientando adornos e móveis por vezes mais baixos, o uso de luzes indiretas e a delimitação de espaços utilizando biombos e o famoso “engawa” - espaço de transição entre ambientes interior e exterior. Pontos que, em suma, refletem um entendimento sofisticado e até de certa forma antecipado, sobre o comportamento humano. O minimalismo japonês também é aprofundado através desse lugar. O conceito de masignifica intervalo, pausa ou espaço entre elementos, podendo ser caracterizado entre objetos, sons, no tempo de reverência, no silêncio de uma conversa e na distância entre duas pessoas.

O vazio possui o compromisso de comunicar o tempo, uma relação com a permanência e em como uma presença se relaciona com outra, diferenciando o minimalismo relacionado à organizaçõ e retirada de materiais, uma vez que a jornada se dá também, pela forma como compreende os princípios de contraste e compensação sensorial, principalmente com técnicas gastronômias e o desenho de uma jornada que considera sabores e texturas a serem integradas como parte de um todo.

Crocância e maciez. Calor e frescor. Umami e acidez. Dificilmente considerados uma nova abordagem. O washoku possui princípios tradicionais que articulam cinco sabores, cinco cores e cinco métodos de preparo e em algumas escolas, incluem também os cinco sentidos. A louça, a sazonalidade, a temperatura, a apresentação e a sequência participam da refeição. Essa sinergia é uma segurança da expectativa gerada à uma sociedade que, ao se conectar, busca uma jornada completa de cuidado com o tempo e em sinergia com todos os elementos. A ordem de servir importa tanto quanto o tamanho dos pratos e das louças, o intervalo vazio entre o design, a arquitetura e, o silêncio fazem com que o conceito de Omotenashi, diferente da hospitalidade ocidental, proponha o pragmatismo à necessidade de perceber o outros antes mesmo que ele faça-se perceber o desejo.

O Japão tornou-se uma das referências mais próximas e tangíveis de uma busca por equilíbrio mental e social, construindo parte da sua identidade cultural a partir da relação entre disciplina, definição de limites e uma consciência ímpar sobre o bem-estar coletivo, sem deixar que a experiência individual desaparecesse por completo.

Nesse ponto, voltamos à sabedoria do design de um jornada: o design de experiência antropológico e intuitivo. Hoje, o campo de pesquisa contemporânea sobre hotelaria trata a experiência do hóspede como uma jornada multissensorial e como estratégia de prováveis ​​ganhos comerciais. Isso porque ambientes visualmente organizados exigem menor esforço de interpretação e tendem a ser percebidos como mais agradáveis e atraentes fato que reflete o motivo da hospitalidade contemporânea reinterpretar princípios e saberes japoneses mesmo fora da Ásia, apostando em um entendimento extremamente refinado sobre permanência, conforto psicológico e atenção humana sem jamais deixar de lado o que os rege: cultura e processo. 

O ensaio “Em louvor à sombra”, de Junichiro Tanizaki, já discutia como culturas orientais desenvolveram uma relação diferente com brilho, penumbra e silêncio visual. Enquanto o Ocidente frequentemente associou hospitalidade ao luxo, parte da tradição japonesa encontrou valor justamente na precisão, repetição e na sutileza, transformando em filosofia uma experiência quase instintiva.

A cultura durante a jornada de experiência impressiona porque parece perfeita enquanto, na verdade, é por ser profundamente originária da ciência e do consciente humano. Um ambiente pode ensinar uma pessoa a olhar, esperar, aproximar-se e relacionar-se. É por isso que projetar experiências exige compreender primeiro como os seres humanos interpretam o mundo.